A Era de Laozi (I): Os Imortais

Iniciamos um novo ciclo, em que falamos sobre Laozi e sua única obra, o Dao De Jing (“Escrituras do Dao e de sua Virtude). Laozi possui um estatuto comparável ao de Confúcio, nada obstante se saber pouco sobre ele, que nem buscou uma carreira de governo, nem criou um grupo de seguidores. A razão para o sucesso e permanência do Taoismo é que possui valores e objetivos diferentes da escola confuciana, estando relacionado à crença em “Imortais” que, com técnicas secretas, possuíam extrema longevidade e poderes sobrenaturais. Uma leitura tradicional dos Analetos afirma que Confúcio admirava um Imortal, o que serviu de reconhecimento do estatuto superior do Taoismo.

 

Referências básicas:

Analectos 7.1, glosas de três coleções de comentários (曹魏何宴《论语集解·述而第七》;北宋邢昺《论语注疏·述而第七》;南宋朱熹《论语集注·述而第七》)

Os Ensaios do Mestre Zhuang, Livro I, Cap. VI (Dazongshi) (东周庄周《庄子·内篇第六卷· 大宗师》

Séries Biográficas dos Imortais: Peng Zu (西汉刘向《列仙传·上卷 彭祖传》)

Biografias dos Imortais Divinos: Peng Zu (东晋葛洪《神仙传 · 卷一 彭祖传》)

A Era de Laozi (II): Os Eremitas

Neste episódio, continuamos a distinguir Taoismo de Confucionismo, baseando-nos no pano de fundo social das duas doutrinas. Ambas se originam da classe dos Shi, possuindo os mesmos referenciais culturais e criando movimentos sociais. Porém, não apenas os modelos de perfeição (Imortais e Sábios) diferem, também a forma de os perseguir é peculiar. Enquanto os confucianos se lançam na carreira burocrática, os taoistas adotam o eremitismo, um tipo de existência em princípio desligado da sociedade e independente dos poderes estabelecidos.

 

Referências básicas:

Analectos: 2.4; 5.23; 6.26; 7.15; 8.13; 9.6; 16.8; 16.11; 16.12; 17.21; 18.5; 18.7; 18.8; (《論語》)

A Era de Laozi (III): A Transmissão Fechada

Neste programa, continuamos a destacar o que há de peculiar em Laozi relativamente a Confúcio, atentando para o pano de fundo social do Taoismo. O Taoismo possui uma forma particular de transmitir sua doutrina, que cognominamos de “transmissão fechada”. Os mestres taoistas são mais exigentes com relação à seleção de seus discípulos, discriminando currículos especiais e privilegiando comunidades fechadas, ao ensinar seus conhecimentos, particularmente seus próprios clãs. Isso tem a ver com a natureza secreta e mística da doutrina, o que faz com que o Taoismo se disperse num número de diferentes tradições.

Referências básicas:

Registros do Cronista, de Sima Qian: rolo 47 “Clã Nobre do Mestre Kong”; rolo 63 “Série Biográfica III: Mestre Lao e Mestre Han Fei”; rolo 67 “Série Biográfica VII: Os discípulos de Zhongni”; (西汉司马迁著《史记》卷第四十七《孔子世家》;卷第六十三《老子韩非列传》;卷第六十七《仲尼弟子列传》)

Analectos de Confúcio: 7.7; 7.24; 15.39; 16.13; (春秋孔丘及弟子著、曹魏何宴、北宋邢昺注《论语注疏》)

Esboço biográfico (I): As três identidades de Laozi

Li Er, tradicionalmente reconhecido como o autor do Dao De Jing e deidade taoista; Lao Laizi, que é citado no Clássico dos Ritos e no Cânone Taoista; e o cronista-mor de Zhou, de nome Dan, conhecido por ter feito uma profecia astrológica a um duque de Qin. No caso de Laozi, o material recolhido por Sima Qian não apenas é limitado em termos quantitativos e qualitativos.

 

Referências básicas:

Registros do Cronista, de Sima Qian: rolo 63 “Série Biográfica III: Mestre Lao e Mestre Han Fei”; (西汉司马迁著《史记》卷第六十三《老子韩非列传》)

Esboço biográfico (II): Laozi, mestre de Confúcio

No último programa, falamos sobre as três possíveis identidades históricas de Laozi, segundo Sima Qian, que compilou as mais antigas anotações bibliográficas sobre aquela personagem. Explicamos que esse material histórico deve ser tratado com muita circunspecção, pois é baseado em tradições orais que, à época, já datavam de mais do que quatro séculos e meio. Desta forma, em primeiro lugar, Sima Qian trata Li Er como sendo o mais provável Laozi. A seguir, acena à possibilidade de que um certo Lao Laizi o fosse. Por último, quase que por dever de ofício, cita o obscuro cronista-mor Dan. Historicamente, mais influentes do que as identidades em si, são duas anedotas que, reais ou não, definem o papel e estatuto de Laozi na posteridade.

Esboço biográfico (III): Laozi, mestre de Confúcio

Neste programa falaremos sobre a segunda anedota fundamental a respeito da vida de Laozi, nomeadamente, a sua partida da China, com o intento de se tornar um eremita “esquecido pelo mundo”.  Neste ponto, o Taoismo separa-se claramente do Confucionismo, afirmando ter um conhecimento superior da realidade e da vida. Na fronteira, Laozi transmitiu sua única obra a um comandante militar, Yin Xi, tendo desaparecido a Oeste.  Segundo a “geografia sagrada” chinesa, lá fica a montanha Kunlun, onde habitava a Rainha-Mãe do Oeste, conhecedora dos elixires da imortalidade.

 

Referências básicas:

Registros do Cronista, de Sima Qian: rolo 63 “Série Biográfica III: Mestre Lao e Han Fei”; (西汉司马迁著《史记》卷第六十三《老子韩非列传》), com anotações de Sima Zhen e de Zhang Shoujie; 唐司馬貞《史記索引》;唐張守節《史記正義》.

As Escrituras do Dao e de sua Virtude (Dao De Jing de Laozi), cap. 80; 《老子道德經· 第八十章》

Interpretação Ortodoxa dos Documentos Augustos, editado por Kong Yingda: rolo 6, “capítulo I:  as obras de Yu”; 《尚書正義》卷第六《夏書•禹貢第一》

Interpretação Ortodoxa do Registro dos Ritos, editado por Kong Yingda: rolos 11 e 12 “capítulo V: As Instituições Reais”; 唐孔穎達《禮記正義》卷第十一、十二《王制第五》

A Escritura das Montanhas e dos Mares, edição do Cânone Taoista: rolos 2, 11 e 16, respectivamente “Montanhas do Oeste”; “Norte dos Mares Interiores” e “Ermos do Oeste”; 《山海經》卷第二《西山經》;卷第十二《海內北經》;卷第十六《大荒西經》, com glosas e comentários organizados por Hao Yixing 郝懿行《山海經箋疏》

Esboço biográfico (IV): Laozi como imortal e deidade

Este programa conclui o esboço biográfico sobre Laozi com as lendas que o retratam como uma personagem central no rico folclore taoista das técnicas de longevidade e imortalidade.  As fontes taoistas afirmam que Laozi teve um mestre (Chisong) e um discípulo (Yin Xi), a quem transmitiu a Dupla Escritura (Dao De Jing).  Com o passar do tempo, Laozi foi consagrado como uma das deidades centrais do Taoismo, havendo inclusive uma lenda em que, ao partir para o Oeste, chegou à Índia e ensinou/transformou-se no Buda.  A casa imperial da dinastia Tang reconheceu Laozi como ancestral, tendo assumido o sobrenome Li.

 

Referências básicas:

Primeiro rolo das Séries Biográficas sobre os Imortais, atribuída a Liu Xiang 漢劉向(傳)《列仙傳》卷上,incluindo os seguintes capítulos:

(1) “O Mestre Chisong (Pinho Vermelho)”《赤松子第一》

(7) “O Senhor Rongcheng”《容成公第七》

(9) “Laozi, o mestre ancião”《老子第九》

(10) “O chefe de guarnição Yin”《關令尹第十》

Primeiro rolo das “Biografias dos Nobres Shi”, de Huangfu Mi 晉皇甫謐著《高士傳》卷上, incluindo os seguintes capítulos:

(16) “Laozi”《老子第十六》

(18) “Lao Laizi”《老萊子第十八》

“Inscrição sobre Laozi”, de Bian Shao, recolhida na compilação “Todos os textos da dinastia Han Oriental”, de Yan Kejun 清嚴可均編《後漢全文》卷第六十二《邊韶·老子銘》

“Tradições sobre o Filho do Céu Mu”, ed. Sibu Congkan《四部叢刊子部·穆天子傳六卷》

“Escritura da conversão dos bárbaros por Laozi”, texto n. 2139, Tripitaka Taisho, vol. 54《大正新脩大藏經》第五十四冊 第2139號經《老子化胡經》

 

 

Dao De Jing (1): O Livro – estatuto, transmissão, estrutura, estilo

Neste programa, faremos uma apresentação geral do Dao De Jing.  Discutiremos primeiro como o obteve do estatuto de “jing”, explicando que, diferentemente dos “clássicos” ortodoxos, é uma escritura religiosa.  Baseados em sua estrutura e transmissão, mostramos que assumiu sua forma definitiva rapidamente.  Em termos de forma e estilo, o livro de Laozi é uma obra literária, coligindo poemas crípticos sobre conhecimentos esotéricos. Por isso, o Dao De Jing atraiu o maior número de comentários em toda a literatura chinesa, dos quais se destacam os de Heshang Gong e Wang Bi.

 

Referências básicas:

Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi; 東周老子《道德經》

Capítulos 3, 19, 38, 69, 75

Registros do Cronista, de Sima Qian: rolo 63 “Série Biográfica III: Mestre Lao e Mestre Han Fei”; 西汉司马迁著《史记》卷第六十三《老子韩非列传》

O Livro do Mestre Han Fei, de Han Fei:

Capítulo 20, “Explicando Laozi”  《韓非子·解老第二十》

Capítuo 21, “O Sentido de Laozi”  《韓非子·喻老第二十一》

“Inscrição sobre Laozi”, de Bian Shao, recolhida na compilação “Todos os textos da dinastia Han Oriental”, de Yan Kejun 清嚴可均編《後漢全文》卷第六十二《邊韶·老子銘》

“Memória dos Três Reinos”, de Chen Shou: rolo 8 “Livro do País de Wei VIII: Biografia de Zhang Lu”; 西晉陳壽《三國志》第八卷《魏書八·張魯傳》.

“Prefácio do Comentário Imperial ao Dao De Jing”, de Li Longji; 唐玄宗李隆基《御注道德經 · 序》

Dao De Jing (2): O Dao

Com este programa, iniciaremos o estudo do Dao De Jing, a Dupla Escritura do Dao e de sua Virtude, destacando o conceito de Dao.  Apesar de que Laozi não o tenha criado esse termo, foi contudo o primeiro a explorá-lo de uma forma abrangente.  A Dupla Escritura é uma coletânea de poemas, mas desenvolve uma argumentação intertextualmente, estruturando-a com o conceito de Dao.  Analisaremos assim o 1º poema, introito de toda a compilação, que define o Dao como uma verdade atemporal, chave para os mistérios da vida e do mundo, exigindo do Taoista que purgue seus desejos para contemplar o Dao.

Explicado neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulo 1; 老子《道德經 · 第一章》:

Dao De Jing (3): Um pouco de Cosmologia

Este programa explorará a dimensão cosmológica do Dao, um dos aspectos em que Laozi revolucionou a história das ideias na China.  No pensamento taoista, o mundo é criado num processo espontâneo de diferenciação.  Do Nada surge uma situação caótica chamada de Hundun, em que todos os elementos da realidade existem indiferenciados.  Com um movimento cíclico, o Dao produz a separação do Hundun em duas forças primordiais (Yin e Yang), que a seu turno formam o “Céu e Terra” (termo arcaico que define mundo/natureza em chinês).  O Dao é a força motriz desse processo cosmogônico, atuando “espontaneamente” (no jargão chinês, através de “Inação”).

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 14, 25 e 42; 老子《道德經 · 第十四、第二十五、第四十二章》

Dao De Jing (4): Espontaneidade e Inação

Após estudarmos a cosmogonia taoista, neste episódio discutimos a forma peculiar de ser do Dao, a “Espontaneidade”.  No credo taoista, o Dao tende a seguir seu curso natural, pelo que o mundo e a natureza se produzem de forma espontânea.  O ambiente social, contudo, é diferente, pois os homens agem intencionalmente, com o fim de satisfazer seus desejos.  Laozi orienta o praticante taoista a intuir esta verdade, orientando-o a imitar o Dao.  O governante taoista ideal influencia a sociedade, “agindo sem agir”, promovendo, sem esforço, a harmonia do todo.

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 2, 3, 23 e 48; 老子《道德經 · 第二、第三、第二十三、第四十八章》

Dao De Jing (5): Virtude

Após compreendermos o funcionamento peculiar do Dao, a chamada “Espontaneidade”, nesta transmissão passamos ao segundo conceito fulcral da Dupla Escritura de Laozi, a Virtude.  No Daoismo, ela não é exclusiva à vida em sociedade, tendo também um papel cosmológico auxiliar ao Dao.  Enquanto o Dao serve de conteúdo, a Virtude é a força que dá forma aos seres.  Diferentemente do Confucionismo, Laozi defende que a Virtude é indivisível e espontânea.  As virtudes confucianas, conseguidas pelo estudo e prática dos Ritos, não são capazes de promover a harmonia social.  Logo, por estar além das instituições humanas, a Virtude superior deve ser realizada por meio do cultivo do Dao.

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 5, 38 e 51; 老子《道德經 · 第五、第三十八、第五十一章》

Dao De Jing (6): Sabedoria

Este programa tenta explicar o que é Sabedoria para o Daoismo.  O praticante taoista deve cultivar a Inação para emular em sua vida o funcionamento do Dao, ou seja, a Espontaneidade.  Isso é particularmente complexo na vida em sociedade.  Laozi desmerece a Sabedoria confuciana, urgindo seus seguidores a que se purifiquem de seus desejos e eliminem quaisquer fontes de conflitos com outrem – mesmo coisas como conhecimentos e a busca de sucesso.  As ideias de Laozi fazem todo o sentido no meio da elite burocrática.  A famosa metáfora da água ensina como promover a satisfação e prosperidade geral, evitando até mesmo as disputas pelo poder.

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 8, 12, 33, 47, 77, 81; 老子《道德經 · 第八、第十二、第三十三、第四十七、第七十七,第八十一章》

Dao De Jing (7): Governo

Neste episódio, discutimos como a Sabedoria taoista se conjuga harmonicamente à sua governança ideal.  O Homem Sábio traduz o que realizou em si numa doutrina de gestão da sociedade.  A metáfora da água explica como se pode exercer influência sobre os outros, sem despertar resistências.  O governante ideal não exibe os benefícios de sua posição, inspirando os seus governados a seguirem o seu exemplo, ao mesmo tempo em que evita que se sintam inferiores a si.  Laozi defende a prática do que chama de “Três Tesouros”, a clemência, a parcimônia e a discrição.  No contexto histórico da Dupla Escritura, clemência e parcimônia são fundamentais para garantir a estabilidade financeira e social de uma ordem política.

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 13, 18, 66, 67, 78; 老子《道德經 · 第十三、第十八、第六十六、第六十七、第七十八章》

Dao De Jing (8): Realismo

Neste episódio, concluímos o ciclo sobre Laozi, falando sobre o seu lado realista.  Laozi tinha plena consciência das complexidades de seu tempo, convidando os governantes a minimizarem a escala de seus conflitos.  Contudo, também aceitava a guerra como fato da vida, advogando a estratégia e a diplomacia como meio de vencê-las com o mínimo de perdas.  Laozi acreditava que acumular recursos era o melhor meio para o sucesso de um país, reconhecendo que uma grande população criava dificuldades.  Por isso, recomendava uma cultura de obediência e uma forte gestão populacional.

Explicados neste programa:  Dao De Jing – A Escritura do Dao e de sua Virtude, de Laozi : Capítulos 30, 31, 36, 46, 61, 65, 72, 75, 80; 老子《道德經 · 第三十、第三十一、第三十六、第四十六、第六十一、第六十五、第七十二、第七十五、第八十章》

Estão disponíveis os vídeos também no sítio oficial da CRIpor:
https://portuguese.cri.cn/zt/cultura/index.html